Thereza Kolbe: Mensagem

Tenho curtido vários reencontros, no Brasil, nos últimos meses. Há poucos dias, por exemplo, voltei a me encontrar com a poesia de Thereza Kolbe. Em 2016, numa livraria do bairro Gonzaga em Santos, encontrei um dos seus poemários, Livro do Rio (2005). Li alguns poemas na livraria, gostei deles, e levei o poemário comigo para a casa dos meus amigos, Renato e Franci. Li o livro enquanto os visitava e gostei tanto da poesia que acabei escrevendo o ensaio “Ser y fluir como río amazónico: poesía de Thereza Kolbe” para a revista Suburbano (Miami).

Agora achei o poemário O Fio de Ariadne (2006). Gostei da referência à história da sobrinha da Circe, irmã do Minotauro e amante de Teseu. Na verdade, Teseu me parece um escroto, mas aprecio a Ariadne e gosto da versão do mito na qual ela é resgatada por Dioniso, após ter sido abandonada pelo ateniense numa ilha.

E nesses dias tenho desfrutado muito lendo os poemas da Kolbe junto com Circe. Demoraram dezoito anos em chegar até mim, mas chegaram no tempo certo, quando estava mais preparado para admirá-los.

Hoje quero partilhar um deles, “Mensagem,” poema simples mas poderoso, cheio de sabedoria vital. Me faz pensar na beleza de momentos partilhados recentemente com formigas carregando flores de ipê amarelo e com passarinhos amarelos e azuis voando na beira do rio Tietê — momentos enriquecidos pela beleza criativa de Natura naturans, longe dos aparelhos que atordoam nosso entendimento.

Mensagem

olhe para mim
não me falta nada
mesmo quando tudo me falta
sei olhar as formigas
passeando pela parede
o sol incansável
a rede para me balançar
na varanda mesmo
quando alguém me diz
você tem zero
mensagens

[Foto da capa: Sanhaçu cinzento / Thraupis sayaca]

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