O Fio de Ariadne

Quando eu penso em Ariadne, imagino e tento comprender três momentos na história da neta de Helios, sobrinha de Circe.

O primeiro é quando ela se apaixona pelo “herói” ateniense Teseu, ao ponto de trair a confiança da sua família cretense. Como surgiu essa paixão pelo Teseu? O que a levou a ajudá-lo para fugir do labirinto, depois dele ter matado o seu irmão, o Minotauro? Como foi o fogo que sentiu ao fugir de Creta com ele?

Segundo, como se sentiu no momento em que se deu conta que o Teseu a havia abandonado na ilha de Naxos? O que fez? O que pensou? Quais as sensações no corpo abandonado? O poeta latino Ovídio escreveu uma carta-poema de Ariadne para Teseu em Heroides, na qual ela reclama o abandono e apela à responsabilidade que ele tem com ela. Mas a carta não fala, realmente, do sentimento passional no coração. Qual foi?

Terceiro, como foi o encontro dela como o deus Dioniso, quem a resgatou na ilha de Naxos e a desposou? Tinha já sarado e concluído que o Teseu era um babaca, “heróico” graças à inteligência dela para idear o fio? O considerava já um imbecil, semvergonha e mesquinho? Ela se apaixonou de novo, pelo Dioniso? Amou o deus do vinho, as festividades e o desenfreio irracional? O simplesmente sentiu gratidão? Alívio? Ainda preciso ler Ars Amatoria do Ovídio, para conhecer a versão dele. Mas eu gosto de imaginar a minha própria versão do enredo.

Aegina, mas me faz imaginar Naxos

Gosto de imaginar esses momentos na história de Ariadne, e outras vivencias passionais nos mitos clássicos, porque revelam muito a respeito do corpo-coração humano.

Há poucos dias li a versão do fio de Ariadne da poeta brasileira Thereza Kolbe. A achei magistral.

O Fio de Ariadne

labirintos escuros
perturbam
e o brilhante bóia
em minha taça
vivemos entre dados

nos fios da propria teia
o mito mudou de nome
mas continua o mesmo

três faces de uma face
todas iguais e contrárias

há varios modos de se viver
um herói - algoz - martir

entre ramagens de fatos
Ariadne Teseu e o Minotauro
Nos jornais da tarde

Não é miragem garanto
Esse fio que não envelhece
É o fio de Ariadne...

Numa interpretação, Ariadne, Teseu e o Minotauro formam um triangulo amoroso, trágico, no estilo daqueles que aparecem nas páginas sensacionalistas dos jornais contemporâneos: dois amantes matam o terceiro, o monstro que impede o seu amor. Me faz lembrar da canção “Cruz de navajas“, do trio espanhol Mecano — uma variação no tema do triangulo amoroso, trágico, que aparece no jornal.

Numa outra, são três rostos da mesma pessoa, ou em termos jungianos, três personas do mesmo self, um self confuso, incapaz de se conhecer.

Podem ser, também, duas pessoas num triangulo dramático, num relacionamento violento, dois amantes que trocam os papéis de herói (salvador), algoz (juiz) e martir (vítima).

Em todos esses casos, o fio de Ariadne é nefasto e fatídico. É um fio passional que leva à violencia, às feridas devastadoras, ao sofrimento profundo.

Como escrevi acima, eu gosto de interpretar esses mitos pelo que dizem a respeito do corpo-coração humano. Mas quero, para mim, uma paixão desaforada, mas transparente e benevolente.

Paixão transparente

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